Coração de Caçador

por Thierry Méranger

Se Coração de Caçador é frequentemente considerado um filme à parte na grande obra eastwoodiana, é preciso reconhecer que, apesar das aparências, a singularidade do título em competição em Cannes, em 1990, não se deve tanto ao fato de se afastar dos caminhos estadunidenses mais batidos (será a única incursão africana do cineasta até Invictus), nem ao improvável sotaque inglês que o ator-diretor adota aqui pela única vez em sua carreira. O 14º longa-metragem do cineasta é, de fato, antes de tudo — e provavelmente continuará sendo — seu único meta-filme. Sabe-se o quanto este projeto de ficção sobre uma filmagem lhe era caro: para poder adaptar o romance biográfico do roteirista Peter Viertel, que descrevia a sua própria experiência nas filmagens de Uma Aventura na África, de John Huston (1951), Eastwood teve de se vender mais uma vez e comprometer-se com a Warner a realizar, em seguida, um buddy cop movie medíocre, Rookie: Um Profissional do Perigo, pelo qual tinha pouco interesse. No entanto, as tribulações do personagem que ele encarna e que decalca de maneira bastante aproximada Huston ilustram um desejo muito paradoxal de ficção cinematográfica: Coração de Caçador conta uma história de produção conturbada, procrastinação cínica e megalomania galopante que termina no momento em que um “Ação!” sem convicção, pronunciado por um demiurgo falido e à beira da morte, permite enfim filmar a primeira tomada. O gesto de John Wilson, herói provocador, narcisista e autodestrutivo, parece assim encerrar a trilogia informal das criaturas maltratadas iniciada por Red Stovall, o cantor tuberculoso de Honkytonk Man - A Última Canção, e Charlie Parker, o gênio consumido(r) de Bird. Devemos, portanto, nos limitar à virada amarga e decepcionante desse verdadeiro-falso biopic, cujas tribulações de uns e de outros — produtor, atores e, ocasionalmente, o próprio realizador — dançam uma valsa de marionetes que pouco se importa com o realismo? Certas sequências — que repousam essencialmente sobre a atuação de Eastwood e sobre o poder da escrita dos seus roteiristas (além de Viertel, os veteranos James Bridges e Burt Kennedy) — permitem destacar a fascinante ambivalência do filme e do seu protagonista. Assim, Wilson, mesmo parecendo encarnar, através da sua paixão monomaníaca e egoísta pelo safari, a inconsciência colonizadora, provoca dois incidentes — um dos quais lhe valerá uma séria sova — ao condenar sem equívoco o antissemitismo de que é vítima o seu roteirista e ao defender um empregado negro maltratado pelo patrão do hotel. Mas o mais inesperado é, em primeiro lugar, a defesa-ilustração apaixonada de Hollywood que ele faz diante do desprezo do diretor de produção. A argumentação assume, com isso, na boca do filmmaker, uma dimensão social inesperada: “Hollywood é um lugar onde se fabrica um produto. Uma cidade-fábrica como Detroit, Birmingham ou Schaffhouse. Não se fala daqueles que lá trabalham e dão o seu melhor. Quando se fala de Hollywood, fala-se de putas. Uma puta vende aquilo que não se deve vender... o amor”. E o cineasta confessa as concessões às quais ele próprio, com pesar, teve de consentir: “Há putas que vendem palavras, ideias, melodias. Eu sei do que estou falando, eu mesmo já fiz ponto”. À surpresa do seu amigo face à súbita expressão desse apego ao “país” que é o mundo do cinema, Wilson conclui: “Foi preciso a África para que eu compreendesse”. Este espelho estendido ao próprio filme ilumina de uma forma muito particular a busca do absoluto pelo herói, cuja paixão pela caça num território imenso e selvagem o conduz aos limites do racional. A partir daí, Wilson passa a viver com a obsessão de encontrar o “big Tusker”, este mítico elefante macho com presas gigantes que é preciso perseguir durante dias e que é o único adversário digno. Sendo assim, o filme só pode progredir para a tragédia do confronto final. Aparece então o verdadeiro modelo do qual Coração de Caçador é — mais do que Uma Aventura na África — o reverso e a reescrita. Mas Moby Dick também já não foi adaptado por Huston?

Chasseur blanc, cœur noir foi publicado na revista Cahiers du Cinéma: Hors-Série nº4: Cinéastes, Clint Eastwood, novembro de 2024, pp.104. Tradução: Ezequiel Antônio da Silva Stroisch.

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