Postagens

Coração de Caçador

Imagem
por Thierry Méranger Se Coração de Caçador é frequentemente considerado um filme à parte na grande obra eastwoodiana, é preciso reconhecer que, apesar das aparências, a singularidade do título em competição em Cannes, em 1990, não se deve tanto ao fato de se afastar dos caminhos estadunidenses mais batidos (será a única incursão africana do cineasta até Invictus ), nem ao improvável sotaque inglês que o ator-diretor adota aqui pela única vez em sua carreira. O 14º longa-metragem do cineasta é, de fato, antes de tudo — e provavelmente continuará sendo — seu único meta-filme . Sabe-se o quanto este projeto de ficção sobre uma filmagem lhe era caro: para poder adaptar o romance biográfico do roteirista Peter Viertel, que descrevia a sua própria experiência nas filmagens de Uma Aventura na África , de John Huston (1951), Eastwood teve de se vender mais uma vez e comprometer-se com a Warner a realizar, em seguida, um buddy cop movie medíocre, Rookie: Um Profissional do Perigo , pelo qual ...

Cineclube Sganzerla apresenta: Tocaias no Asfalto — Parte 1

Imagem
Entre a rotina de assassinos de aluguel, missões secretas conduzidas por agentes internacionais, perseguições entre policiais e ladrões e a busca impossível por redenção, a primeira parte do ciclo  Tocaias no Asfalto , apresentado pelo  Cineclube Sganzerla  entre os dias 14 e 21 de dezembro, dedica-se ao cinema de ação como gesto,  mise-en-scène  e pulsação contemporânea. Os encontros virtuais serão realizados via Google Meet, nos domingos 14 e 21 de dezembro, a partir das 16h.  Clique aqui e inscreva-se para participar. Em comemoração aos dois anos de atividade do cineclube, esta seleção reúne quatro filmes que atravessam diferentes geografias do gênero — da frieza calculada de Berlim ao glamour tautológico do 007, da elegância barroca japonesa à moral trágica de Hong Kong. Assinado coletivamente pela curadoria do  Cineclube Sganzerla , o programa traz obras de Thomas Arslan, Martin Campbell, Kinji Fukasaku e John Woo. A seguir, a folha de aprese...

Joan Bennett, a “coisa embrulhada em celofane”

Imagem
Por Christian Viviani. Joan Bennett não foi uma estrela. Mas se podemos ler sua carreira como uma série de encontros perdidos com o verdadeiro sucesso público, ela foi, em certo sentido, mais do que uma simples estrela: uma epifania fulgurante, que o sucesso popular desprezou, mas que alguns dos maiores cineastas europeus de Hollywood conseguiram milagrosamente capturar em sua trajetória. Nascida em 1910, estreando no cinema em 1928, Joan Bennett vem de uma família de atores. Seu pai é o célebre e excêntrico Richard Bennett, que Orson Welles transformou no patriarca Amberson. Suas irmãs são a brilhante e espirituosa Constance, a primeira heroína de Cukor, e a mais obscura Barbara. Joan surge a princípio como uma versão mais popular da sofisticada e mundana Constance: a mesma loira espumosa alisada com brilhantina, o mesmo perfil delicioso, a mesma silhueta impecável. No entanto, Joan não aposta na ostentação do figurino ou na alusão assassina. Sua aparência refinada, quase virginal, el...

Cineclube Sganzerla apresenta: Qual a Cor da Mentira?

Imagem
Entre os dias 19 de outubro e 2 de novembro, o Cineclube Sganzerla apresentará ciclo de filmes cujas narrativas, que giram em torno do casamento, ressaltam a especificidade do cinema em espelhar as zonas acinzentadas do que é verdadeiro. A programação, intitulada Qual a Cor da Mentira? , é composta por títulos de cineastas como Claude Chabrol e Rainer Werner Fassbinder, além de uma sessão dupla dedicada a Joan Bennett, atriz de Fritz Lang, mas também de Jean Renoir. Os encontros virtuais serão realizados via Google Meet, nos domingos 19 e 26 de outubro e 2 de novembro, a partir das 16h. Clique aqui e inscreva-se para participar . Leia abaixo o texto de apresentação da curadoria: Qual a Cor da Mentira? Por Ezequiel Silva. Depois de Jean-Luc Godard afirmar que o cinema é a verdade 24 vezes por segundo, o cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder teria dito que o cinema é a mentira 24 quadros por segundo. Não se trata de escolher entre um e outro, de descobrir quem está certo ou errado, m...

Violência e silêncio em Killer of Sheep (1978)

Imagem
Eu vou começar este comentário pelo começo, para não correr o risco de me perder. Na primeira cena de Killer of Sheep , vê-se representada uma certa brutalidade masculina no modo como o pai coloca o filho contra a parede, intimando-o, dizendo ao garoto que ele deve resolver os problemas com agressão, ou seja, na base da força. Em seguida, tem-se uma sequência na qual crianças, até onde pude ver majoritariamente meninos, arremessam pedras uns contra os outros, esbofeteiam-se e rolam no chão como se estivessem travando uma batalha. A lógica impressa pela montagem me é bastante direta: eles, os filhos, ouviram os pais. Não se confunda, leitor: os sujeitos estão todos no masculino. Abre-se, a partir daí, uma chave de leitura possível para o longa-metragem de Charles Burnett, cuja atenção se volta à maneira como as diferentes formas de violência, perpetradas contra o coletivo que é registrado, serão, enfim, reproduzidas. Se o comportamento das crianças é reflexo do comportamento dos pais, p...

Cineclube Sganzerla apresenta: A Conversa Invisível

Imagem
O Cineclube Sganzerla apresentará entre os dias 17 e 31 de agosto um ciclo de filmes sobre intimidade negra. A programação, intitulada A Conversa Invisível , propõe um diálogo acerca da memória e um passeio no território do afeto em cinematografias de cineastas como Charles Burnett, Edward Owens, Isaac Julien, Kathleen Collins, entre outros. Os encontros virtuais serão realizados via Google Meet nos domingos dias 17, 24 e 31, a partir das 16h. Clique aqui e inscreva-se para participar .  Leia abaixo o texto de apresentação da curadoria: A Conversa Invisível Por Misael. Há gestos que o mundo não ensina a ver. Há palavras que só se pronunciam com os olhos, com o toque, ou com um silêncio partilhado. Este ciclo de filmes — de Edward Owens a Charles Burnett, de Isaac Julien a Kathleen Collins — compõe uma travessia pela intimidade negra como prática de invenção e resistência. São retratos de relações amorosas, de vínculos familiares e de encontros consigo mesmo, onde a câmera não busca...

Notas sobre Twin Peaks: The Return

Imagem
  A incandescente destruição Twin Peaks: The Return, ep. 8, 2017 Por Philippe Fauvel. Uma explosão atômica, o efeito corona de um campo elétrico, fluxos e chiados aliados à intensidade da música de Krzysztof Penderecki, Trenodia às Vítimas de Hiroshima . Em 16 de julho de 1945, no parque White Sands, em Novo México, ocorreu um teste de explosão nuclear. Nós avançamos sobre o cogumelo atômico, o penetramos. O casamento Penderecki-Lynch é aterrorizante, absolutamente trágico. Surge então um feixe de estilhaços em preto e branco, a imagem e o som ressoam mutuamente: as notas sustentadas, seus estridentes e os agudos de todas as cordas riscam a tela. Como gritos num desenho, como arranhões sonoros. Um fundo de grafite insondável e essas nitescências em negativo, e toda a dor do mundo que devasta a alma. Os seres maléficos com rostos carbonizados que povoam a terceira temporada, essas pequenas mãozinhas de lenhadores que se intrometem e fazem o trabalho sujo, explodem crânios ou mancham...