sábado, 10 de março de 2018

Melhores filmes do Oscar 2018


No último domingo, 4, ocorreu a 90ª edição do Oscar e o Falando Cinema não poderia deixar de comentar a respeito dos filmes indicados na categoria principal. Ano passado havíamos publicado os comentários antes da entrega dos prêmios, hoje, apresentaremos as nossas considerações depois do anúncio dos vencedores. Sem mais delongas, vamos às nove produções que concorreram ao Oscar de Melhor Filme.

Começaremos por Me Chame Pelo Seu Nome que, na opinião do redator que aqui escreve, deveria ser o grande vencedor da noite. O italiano Luca Guadagnino demonstrou muita maturidade e elegância na direção. Com o apoio do fotógrafo Sayombhu Mukdeeprom, ele compõe uma atmosfera envolvente de repouso que permeia os belos planos e sequências do longa-metragem. Uma pena não terem indicado Guadagnino e Mukdeeprom nas categorias técnicas. Por outro lado, fico contente com a vitória de James Ivory, a qual proporcionou um dos melhores momentos da cerimônia. O texto adaptado pelo roteirista de 89 anos consegue ser, assim como os personagens daquela história, à frente do tempo. Não menos importante, chamo atenção para a performance inesquecível de Timothée Chalamet e Armie Hammer, que por sua vez estabeleceu uma figura curiosamente voraz e sedutora. Em suma, é uma preciosa e apaixonante obra que aborda as incertezas da adolescência de maneira orgânica.

Outro título que poderia muito bem ficar com os prêmios de Melhor Filme e Melhor Diretor é Trama Fantasma, escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson. Com certeza é o trabalho mais maduro do cineasta, que dispensa qualquer elemento político-social da diegese para explorar profundamente o psicológico das personagens. Nessa perspectiva, ambientar grande parte da narrativa em locais fechados foi uma escolha astuciosa de Anderson. Talvez o cinema desse californiano seja mesmo excessivamente rígido e perfeito, conforme apontam alguns críticos. Se isso é uma virtude, ou se é um defeito, só o futuro dirá. Porém, não podemos ignorar o fato de que, entre os cineastas norte-americanos, ele é um dos mais interessantes.

Corra! foi um acontecimento. Ano passado impressionou milhões de espectadores nos cinemas que, de "boca a boca", fizeram dessa pequena produção um sucesso milionário de bilheteria. Pelo visto o êxito continua, afinal, quem diria que uma simbiose dos gêneros terror e comédia chegaria no Oscar? Acho que nem o realizador Jordan Peele esperava conquistar um prêmio expressivo, como o Oscar de Melhor Roteiro Original, com uma obra tão ácida. Depois de ganhar a merecida estatueta, Peele dedicou a vitória para todos aqueles que deixaram o filme, entre aspas minhas, "acontecer". Creio que nós assistimos o nascimento de um potencial clássico que continuará impressionando muitos cinéfilos nos próximos anos.


De forma análoga, Três Anúncios Para um Crime aposta na mistura de tons para refletir a respeito das diferentes reações provocadas pelo ódio e a violência. O roteiro de Martin McDonagh toca em feridas e aborda temas curiosos, mesmo que de modo ligeiro e superficial. Parece-me que o roteirista, que também dirige o longa-metragem, quer abraçar um microcosmo complicado e grande demais para os braços. Apesar de gostar dos personagens e das atuações memoráveis de Frances McDormand e Sam Rockwell, ainda estou incerto quanto ao atrapalhado tom tragicômico do filme.

Confesso que fiquei feliz ao ver Greta Gerwig contemplada com duas indicações pelo seu empenho na direção e roteirização de Lady Bird: A Hora de Voar. Especialmente por se tratar de um projeto pessoal, quase biográfico. Quem sabe a maior virtude do filme seja o desapego, pois Greta não investe nas cenas potencialmente emocionantes e dramáticas, dessa forma escapa da pieguice ou do exagero e compõe uma obra dramaturgicamente honesta. Está longe de ser uma obra-prima, mas pelo menos consegue revelar a promissora cineasta dentro da atriz.

O vencedor nas categorias de Melhor Filme e Melhor Diretor, A Forma da Água, decepcionou-me um pouco. No entanto, consigo compreender o carinho e a escolha da Academia pela nova obra de Guillermo del Toro. Tentando entender a minha indiferença com os filmes do cineasta, deparei-me com uma crítica e a seguinte sentença de José Geraldo Couto: "Del Toro, em contraste, se leva a sério demais". Devo concordar com o comentário do crítico, pois talvez seja essa sisudez que me distancie de outros trabalhos do diretor, como O Labirinto do Fauno. Mesmo apresentando uma fábula bem encenada e encantadora do ponto de vista estético, não consigo envolver-me emocionalmente com os personagens rigorosamente bem desenhados e delimitados.


Por último, deixei as três produções mais fracas. Começo por The Post: A Guerra Secreta. Steven Spielberg sabe como entregar aquele bom cinema comercial que, geralmente, termina com uma nota alta e agradável ao público. The Post cumpre isso com um final que lembra o desfecho dos atuais filmes de super-heróis. Obviamente não assistimos pessoas fantasiados e super poderosas, apenas uma representação cartunesca de Richard Nixon, que cumpre bem o papel de vilão.

Eu adoraria assistir uma versão de Dunkirk do Christopher Nolan ambientada exclusivamente à beira-mar. Aquele plano dos panfletos caindo sobre os soldados britânicos que caminham pelas ruas vazias de Dunquerque momentos antes de serem alvejados é belíssimo. Infelizmente os caprichos narrativos do diretor desprendem o espectador do drama, ainda assim ele consegue entregar o seu melhor filme desde Batman - O Cavaleiro das Trevas. Tecnicamente está impecável.

O Destino de Uma Nação também está visualmente bem-acabado. Gosto da cinematografia que aposta no contraste de luz e sombra, bem como de alguns planos e sequências. O design de produção e figurinos são ótimos, como era de se esperar. Falando em imagem, Gary Oldman está irreconhecível no papel de Winston Churchill, mesmo carregado de próteses e maquiagem a presença do ator se sobressaí. O que mais incomoda-me no filme é o péssimo desenvolvimento da personagem interpretada pela Lily James.

Considerações finais 

Além dos títulos indicados na categoria de Melhor Filme, eu gostaria de comentar um pouco sobre outros acontecimentos da 90ª edição do Oscar. A começar pelo fato de convidarem Warren Beatty e Faye Dunaway para apresentarem o vencedor do prêmio principal novamente. Depois daquele episódio na última edição, nada mais justo do que honrá-los uma segunda vez. Acredito que o pedido de desculpas da Academia foi aceito.

Ainda quero fazer uma observação sobre a categoria de Melhor Roteiro Original, que na minha opinião está cada vez mais interessante. Nos últimos anos figuraram entre os indicados textos bem originais, verdadeiros pontos fora da curva do cinema comercial, tais qual: NebraskaO Abutre; Ex-Machina; Straight Outta Compton; O Lagosta; entre outros. Em 2018, por exemplo, uma das melhores comédias românticas dos últimos anos, Doentes de Amor, estava concorrendo ao prêmio.

No mais, acho que Blade Runner 2049 poderia ser a décima produção indicada para o Oscar de Melhor Filme, mas foi lamentavelmente esnobado. Ao menos saiu com os prêmios de Melhores Efeitos Visuais e Melhor Fotografia.

Estendi demais essa publicação. Espero que vocês tenham apreciado minhas curtas e vagas observações. Fiquem à vontade para comentarem quais entre os filmes indicados são os seus favoritos. Até a próxima!

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Melhores filmes de 2017

Antes de tudo, desejamos um feliz ano novo para todos os leitores do Falando Cinema. Começaremos o ano com a publicação da nossa segunda lista que, dessa vez, contemplará os melhores filmes de 2017. Todas as obras escolhidas foram lançadas comercialmente no Brasil ano passado. Selecionamos 10 títulos, que vocês poderão conferir abaixo, organizados de acordo com a data de lançamento no circuito brasileiro. Apesar de não utilizarmos as famigeradas "estrelinhas", comentamos cada um dos filmes destacados. Por último, vale lembrar que trata-se de uma lista pessoal do redator que aqui escreve.


Eu, Daniel Blake [I, Daniel Blake, 2016], de Ken Loach

O meu primeiro contato com a filmografia do cineasta octogenário Ken Loach também foi a primeira crítica publicada no Falando Cinema. A luta do carpinteiro Daniel contra um sistema burocrático que trata com desdém os menos favorecidos é narrada com discrição por Loach. O diretor privilegia as boas performances de Dave Johns e Hayley Squires que, quando contracenando, promovem algumas das cenas mais emocionantes do cinema em 2017. Mesmo não apresentando uma história grandiosa, Eu, Daniel Blake aborda temas importantes com simplicidade e envoltura. 


A Criada [Ah-ga-ssi, 2016], de Park Chan-wook 

Entre tantas outras virtudes, aquela que impulsionou Park Chan-wook ao reconhecimento internacional foi a capacidade de filmar a violência como poucos. Em seu mais novo filme ele vai além, mostrando que pode fazer o mesmo com o sexualidade. Chan-wook teria sido criticado por assumir uma postura sexista, se não fosse o olhar sensível com o qual registra as protagonistas. Quem sabe a maior virtude do sul-coreano seja mesmo a sensibilidade. Ademais, A Criada é uma produção irretocável narrativa e cinematograficamente que raramente se perderá na memória.


Silêncio [Silence, 2016], de Martin Scorsese 

Conversar sobre religião será para sempre uma tarefa delicada, acima de tudo nos dias de hoje. Não entendo o porquê de Silêncio ser esnobado por parte da crítica e pelo público. Afinal, Martin Scorsese dirigindo um filme "religioso" deveria despertar, no mínimo, curiosidade. Buscar compreender os motivos dele ser tão menosprezo revela, num primeiro momento, algumas de suas maiores grandezas. São duas horas e quarenta minutos difíceis, no melhor sentido possível, pois Scorsese possui invejável controle de sua mise-en-scène. O diretor ainda conta com o auxílio da fiel montadora Thelma Schoonmake e do fotógrafo Rodrigo Pietro para realizar uma obra de rigor histórico incomum no cinema contemporâneo.


O Ornitólogo [O Ornitólogo, 2016], de João Pedro Rodrigues

João Pedro Rodrigues filma esse ornitólogo, Fernando (interpretado por Paul Hamy), solitário à procura de aves raras. O personagem, cego pela ambiciosa pesquisa, perde o controle do caiaque ao ser puxado por uma forte correnteza. Em meio à natureza, o homem perderá o controle da própria realidade. No fim, Fernando se torna Antônio (João Pedro Rodrigues). O Ornitólogo pode lembrar o cinema de Apichatpong e até mesmo de Jodorowsky, mas na verdade é uma obra de beleza sem igual. A maneira como o diretor transita entre o real e o fantástico é impressionante.


Martírio [Martírio, 2016], de Vincent Carelli

Em vez de escolher o caminho fácil do didatismo, Martírio opta pelo exercício de apenas mostrar. Devo dizer que, na minha opinião, isso que é cinema. Vincent Carelli não apela para convenções documentais, visto que compõe uma obra-prima com modestos diários filmados de suas vivências com os indígenas. Mesmo assim o filme de Carelli consegue revoltar, esclarecer e emocionar. Obras como essa são determinantes para conscientização da sociedade brasileira acerca do extermínio da população indígena. Está, sim, entre os filmes brasileiros mais importantes dos últimos anos.


Corra! [Get Out, 2017], de Jordan Peele

Entre os diversos gêneros e subgêneros de filmes que surgiram no decorrer da história do cinema, terror e comédia devem ser os mais difíceis de trabalhar, sobretudo atualmente. Neste aspecto, Corra! merece entrar na lista dos melhores de 2017. O estreante Jordan Peele, roteirista e diretor do longa-metragem, constrói um suspense astuto em torno dos males da sociedade com doses certeiras de humor. O protagonista Daniel Kaluuya, dono de um olhar marcante, guia o espectador para esse inesquecível terror à luz do dia. No fim, lembra o que poderia muito bem ser uma paródia de Adivinhe Quem Vem Para Jantar realizada pelo Sam Raimi.


Z - A Cidade Perdida [The Lost City of Z, 2016], de James Gray

O pretensioso projeto de James Gray está longe do brilhantismo de obras menores como Fuga para Odessa e Amantes. Porém, Z - A Cidade Perdida não deixa de ser uma ótima peça na filmografia desse cineasta que dificilmente falha. Escrevi sobre essa estonteante aventura realizada por Gray no blog, clique aqui para conferir a crítica completa.


Frantz [Frantz, 2016], de François Ozon

Um belíssimo retrato, considerando o formidável trabalho do diretor de fotografia Pascal Marti, das fragilidades humanas. Em Frantz, François Ozon explora os danos psicológicos causados pela guerra e registra uma sociedade em tons de cinza. As verdades ocultas, o medo do futuro, as obrigações sociais e a paixão irrefreável são temas discutidos ao longo do melodrama. Gosto da narrativa que brinca com o espectador, armando uma série de hipóteses a respeito do jovem Adrien. Além de ser a melhor surpresa que tive no cinema em 2017, ressalto a presença iluminada de Paula Beer.


Nocturama [Nocturama, 2016], de Bertrand Bonello

Por vezes, sonho que estou escondendo-me da polícia depois de cometer um crime de terrorismo. Um sonho absurdo, ou, melhor dizendo, um pesadelo absurdo. O desfecho de Nocturama conseguiu me transportar para esse pesadelo que há tempos assola as minhas noites de sono. O trabalho de direção e montagem do francês Bertrand Bonello é fascinante. Ele consegue compor duas metades para o longa-metragem, completamente diferentes no que diz respeito ao ritmo e clima, de uma forma genuinamente harmoniosa.


Na Praia à Noite Sozinha [Bamui haebyun-eoseo honja, 2017], Hong Sang-soo

Neste momento, se existem cineastas fazendo o legítimo cinema de auteur (assim mesmo, com aquela palavra utilizada pelos franceses da Cahiers du Cinema), Hong Sang-soo está na linha de frente. Na Praia à Noite Sozinha, diferente do caloroso Certo Agora, Errado Antes, levou algumas semanas para amadurecer e conquistar a minha admiração. Observamos alguns encontros banais e o cotidiano da protagonista Younghee, interpretada pela ótima atriz Kim Min-hee (de A Criada), num tour de force impressionante. O melhor do cinema de Sang-soo encontra-se na enigmática mistura entre realidade e ficção, encenação e improviso. Me arrisco a dizer que deixaria André Bazin muito contente.

Finalmente, depois de pré-selecionar 18 títulos, consegui destacar os mais marcantes de 2017. Curioso que oito desses filmes foram lançados em 2016, mas só estrearam no Brasil ano passado. Seis deles (os dirigidos por Loach, Rodrigues, Carelli, Peele, Ozon e Bonello), apresentaram-me filmografias inéditas. Além das descobertas, pude reafirmar o meu carinho pelo cinema sul-coreano e por cineastas como Scorsese e Gray. Enfim, gostaríamos de saber: quais são os melhores filmes que vocês assistiram em 2017? Fiquem à vontade para interagir nos comentários.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Crítica: Z - A Cidade Perdida (2016)


O termo presente indica uma fatia instável do tempo que, agora, tornou-se passado. Visto que flui constantemente em direção ao futuro. Z - A Cidade Perdida, sexto longa-metragem do diretor James Gray, projeta com sensibilidade esse instante de tempo na tela.

Acompanhamos a história do oficial britânico Percy Fawcett (Charlie Hunnam), que no início do século 20 liderou uma exploração na Amazônia para cartografar a divisa entre Brasil e Bolívia. Percy enxerga a missão como uma forma de elevar o nome dos Fawcett (no início do filme, autoridades lembram que seu pai era um "jogador beberrão"). Ele deixa para trás o velho continente e sua esposa Nina (Siena Miller), para aventurar-se na selva tropical com Henry Costin (Robert Pattinson). No fim da jornada, após encontrar potes de cerâmica quebrados, ele fica obcecado com a ideia de existir uma cidade perdida na floresta. Dominado pela cobiça, ao longo dos próximos 20 anos, Percy retorna duas vezes para lá. 

Notem que o protagonista é movido pela oportunidade de recuperar o prestígio da família, até então assombrada pela má reputação do pai. Em seguida, ele será motivado pela ambição de encontrar a cidade. Essas duas forças exercidas sob o herói simbolizam, respectivamente, passado e futuro. A partir desse confronto, Gray ocupa-se em registrar os momentos determinantes do presente (aquela fatia mutável de tempo, comentada no início do texto). Em suma: as lentes do autor contemplam o sútil processo de transformação das personagens. 

O interessante é que a narrativa não explora apenas a história do homem que tornou-se lenda, ela também olha com carinho para conversão de outros elementos. Como por exemplo, Nina, que sustenta sozinha a família durante anos. Ou Jack Fawcett (Tom Holland), filho mais velho de Percy, que num primeiro momento confronta o pai, mas depois decide juntar-se na busca pela cidade perdida. Em escala maior, a própria Europa está passando por alterações com a chegada da Grande Guerra, assim como a Amazônia e os povos originários com as explorações. Em escala menor, por meio de uma belíssima cena, observamos a filha do explorador correndo atrás do carro que levará, para sempre, seu pai e irmão. 

James Gray assina o roteiro, adaptado do livro de não-ficção do jornalista Davi Grann. Apesar dos pontos positivos apontados anteriormente, o texto recebeu diversas críticas, sobretudo quanto a veracidade da personalidade do protagonista. Como não conheço detalhes da figura histórica, deixei de lado tais observações. No entanto, outro problema incomoda-me: a decupagem do roteiro. Embora tenha duas horas e vinte minutos de duração, a película passa rápido. Em outros títulos essa condição seria um ponto positivo, não é o caso de Z - A Cidade Perdida. Tanto a narrativa quanto a dramaturgia da obra pedem calma para serem desenvolvidas. Com uma minutagem maior, com certeza teríamos mais envolvimento com personagens secundários e sentiríamos o impacto da passagem diegética das décadas.

Um fator decisivo do longa é o excelente trabalho do diretor de fotografia Darius Khondji. Com esse apoio, Gray consagra-se como um dos grandes construtores de planos no cinema. Logo na primeira sequência (a caçada), os instantes filmados evocam a vitalidade e vulnerabilidade daqueles indivíduos e animais. Após assistirmos um homem cair do cavalo, notamos que aquela prática divertida anda de mãos dadas com a morte. Essa dualidade está presente em outros planos e sequências do filme. Como por exemplo: o contraste de cores das cenas rodadas na selva e naquelas fotografadas em escritórios e casarões; o terror das trincheiras em comparação com a quietude da natureza; entre outros. 

Algumas atuações merecerem destaque: Charlie Hunnam (conhecido por protagonizar Sons of Anarchy) entrega a melhor performance de sua carreira, compondo um personagem convincente, através de uma interpretação contida; Siena Miller está ótima, mesmo fazendo aparições pontuais, sua presença rouba a cena; A estrela Robert Pattinson comprova, novamente, que não é aquele ator limitado de Crepúsculo

Com um orçamento milionário, o pretensioso projeto de James Gray está longe do brilhantismo de obras menores como Fuga para Odessa e Amantes. Porém, Z - A Cidade Perdida não deixa de ser uma ótima peça na filmografia desse cineasta que dificilmente erra. 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

10 filmes para conhecer a Nova Hollywood

Esta é a primeira lista de filmes do blog, espero que vocês gostem do formato! Mais uma vez comentarei a respeito da Nova Hollywood, movimento cinematográfico que revolucionou o cinema estadunidense na década de 1970. Selecionar apenas 10 títulos de um extenso período (a Nova Hollywood encerra-se em 1980) foi uma tarefa complicada. No entanto, acredito que as indicações (torço para que vocês assistam pelo uma dessas obras) contemplaram momentos importantes do movimento.


Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas [Bonnie and Clyde, 1967], de Arthur Penn

Durante a Grande Depressão, Bonnie (Faye Dunaway) conhece Clyde (Warren Beatty) de forma inusitada, os jovens se apaixonam e tornam-se uma dupla de assaltantes que ficará marcada para sempre na história dos Estados Unidos. Mesmo possuindo diversos elementos da Hollywood clássica, o filme de Arthur Penn conseguiu trazer ousadia e juventude para os cinemas estadunidenses, no maior estilo Nouvelle Vague. Com a união desses elementos Bonnie e Clyde conquistou público e crítica. Além disso, abriu o caminho para outras importantes produções da Nova Hollywood


Sem Destino [Easy Rider, 1969], de Denis Hopper

Após ganharem uma quantia considerável de dinheiro traficando drogas, os motoqueiros Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper) viajam para o leste dos Estados Unidos, com a ambição de visitar Nova Orleans durante o Mardi Gras, um famoso carnaval. A trama simples pode enganar os desavisados, visto que Sem Destino está longe de ser um road movie comum. Peter, Dennis e o escritor Terry Southern escreveram um roteiro libertador e alucinógeno para o filme, que é considerado até hoje o marco inicial da Nova Hollywood. Aqui, temos a obra síntese da contracultura no cinema, responsável por projetar nas telas a geração pós-1968.


Corrida Sem Fim [Two-Lane Blacktop, 1971], de Monte Hellman

Dois jovens (James Taylor e Dennis Wilson) viajam pelos Estados Unidos abordo de um Chevy 55 disputando corridas. Acompanhados de uma garota (Laurie Bird), eles conhecem G.T.O (Warren Oates) e travam uma corrida até Washington. A obra-prima de Monte Hellman viaja ao lado de jovens descrentes do futuro. Hellman demonstra controle absoluto de sua mise-en-scène, compondo um dos melhores filmes da Nova Hollywood. De maneira minimalista e melancólica, Corrida Sem Fim fotografa olhares perdidos em uma época de grandes mudanças. 


Procura Insaciável [Taking Off, 1971], de Miloš Forman 

Após descobrirem que a filha adolescente desapareceu, provavelmente com um grupo de hippies, os pais partem em sua busca. Nas ruas, o casal conhecerá uma nova juventude. Procura Insaciável é o primeiro trabalho do checo Miloš Forman no Estados Unidos. Além de dirigir o filme, ele escreveu o roteiro, em conjunto com o renomado Jean-Claude Carrière. Antes de iniciar a produção do longa-metragem, os dois estrangeiros viveram com algumas comunidades hippies, dessa forma, conheceram empiricamente o movimento. Miloš, que na época tinha por volta de 39 anos, optou por filmar a história pelo ponto de vista dos adultos. O resultado: uma comédia imperdível.


Operação França [The French Connection, 1971], de William Friedkin

Jimmy "Popeye" Doyle (Gene Hackman) e seu parceiro Buddy Russo são detetives em Nova York que descortinam uma rede de tráfico de drogas originada na França. Ao descobrirem que o líder da organização está na cidade, eles iniciam uma frenética busca para interceptar o carregamento e prender o criminoso. William Friedkin revolucionou conceitual e tecnicamente o cinema policial com Operação França. Assim como os subúrbio de Nova York, as personagens (inclusive os protagonistas) são decadentes e violentos. Mesmo com um desfecho negativo, o filme ganhou os Oscar's de Melhor Filme, Diretor e Edição.


Essa Pequena é uma Parada [What's Up, Doc?, 1972], Peter Bogdanovich

Quatro valises de viagem idênticas, uma com joias valiosas, outra com rochas, a terceira com roupas e a última com arquivos governamentais secretos são trocados em um hotel de São Francisco. O argumento emaranhado de Essa Pequena é uma Parada torna-se o cenário perfeito para elaboração de esquetes hilárias. Pesquisador e cinéfilo, o diretor Peter Bogdanovich aproveita o filme para prestar uma homenagem às "comédias malucas". Enfim, uma comédia de pureza fascinante, inserida em uma obra memorável. 


Terra de Ninguém [Badlands, 1973], Terrence Malick

O desequilibrado Kit (Martin Sheen) mata o pai de Holly (Sissy Spacek), sua namorada de 15 anos, que não aprovava o relacionamento deles. Os jovens fogem para Montana. Kit comete novos assassinatos e chama atenção da polícia. A irretocável estreia do erudito cineasta Terrence Malick é uma joia que, felizmente, não foi esquecida na história do cinema. Um conto sobre a sobrevivência abastecida com violência e amor. Malick continua realizando bons filmes, no entanto, Terra de Ninguém é a sua obra-prima.


Taxi Driver [Taxi Driver, 1976], de Martin Scorsese 

Travis Bickle (Robert DeNiro) é um jovem veterano do Vietnã, que volta para Nova York trabalhando como motorista de táxi. Através do emprego, ele conhecerá Betsy (Cybill Sheperd) e Iris (Jodie Foster), uma prostituta de apenas 12 anos. Inegável clássico, Taxi Driver está consolidado para sempre na história do cinema. O icônico protagonista e sua jornada autodestrutiva tornaram-se fonte de inspiração para incontáveis obras. Caso você não tenha assistido ao filme, saiba que ele está disponível no catalogo da Netflix. Corre lá e faça o dever de casa!


A Outra Face da Violência [Rolling Thunder, 1977], de John Flynn

O major Charles Rane (William Devane) volta do Vietnã para sua cidade natal e recebe, como homenagem, muitas moedas de prata. Bandidos invadem a casa do militar para roubar os itens e matam sua esposa e filho. Sem uma das mãos, Charles vai atrás dos criminosos para se vingar. Escrito pelo mesmo roteirista de Taxi Driver, Paul Schrader, A Outra Face da Violência é um daqueles títulos capazes de sintetizar o que foi a Nova Hollywood. A trama é amarga, bruta e intensa. O excelente trabalho técnico do diretor John Flynn, muito estimado por Quentin Tarantino, fecha o pacote. 


Touro Indomável [Raging Bul, 1980], de Martin Scorsese

O pugilista Jake LaMotta (Robert De Niro), conhecido como "o touro do Bronx", sobe na carreira com rapidez. Porém, o comportamento violento e possessivo deixará em ruínas sua vida pessoal. As consequências da ira são retratadas com frieza no longa-metragem, protagonizado por um impressionante De Niro. Mesmo sendo a segunda obra de Martin Scorsese contemplada, encerraremos a lista com Touro Indomável, que para o jornalista Peter Bisking simboliza o final da Nova Hollywood.

Pronto, traçamos uma rápida linha do tempo apontando alguns filmes importantes da Nova Hollywood. Sentiu falta de alguma obra desse período? Fique a vontade para compartilhar outros títulos nos comentários, quem sabe, poderemos elaborar uma segunda lista sobre o movimento. E que tal sugerir o tema da próxima lista? O espaço está aberto para interagirmos, comenta aí. 

sábado, 18 de março de 2017

Crítica: Logan (2017)


Colecionei quadrinhos de super-heróis durante alguns anos, mas parei com o hobbie. Apesar disso, ainda nutro um enorme carinho pelas adaptações cinematográficas dessas histórias. Gostei bastante de Logan, novo filme do diretor James Mangold e, provavelmente, o último de Hugh Jackman no papel do personagem Wolverine. É uma obra que refresca o gênero e renova a nossa esperança como espectadores.
Diferente dos outros filmes da franquia, não vemos heróis em ação, acompanhamos a jornada de um homem fisicamente e emocionalmente destruído. Por isso, o título Logan encaixa perfeitamente nesse projeto. O personagem, até então imbatível, luta para sobreviver em um mundo onde mutantes são perseguidos. Escondido no deserto, em um depósito abandonado, ele conta com o auxílio de Caliban (Stephen Merchant) para cuidar do debilitado Charles Xavier (Patrick Stewart), antigo líder do grupo X-Men.
Quando Logan conhece Laura (Dafne Keen), criança mutante e fugitiva de um laboratório sinistro, a história percorre caminhos perigosos. Afinal, ela está sendo caçada por Donald Price (Boyd Holdbrook), capanga do odioso Dr. Zander Rice (Richard Grant). A princípio, o herói aposentado reluta em ajudá-la, porém, aos poucos começa a identificar-se com a menina e decide encarar a missão de protegê-la.
Inicia-se a jornada em busca de um lugar seguro, onde a esperança da raça mutante poderá respirar com tranquilidade. Nesse road movie, o roteiro consegue equilibrar ação e emoção com personalidade. Em certos momentos, por exemplo, podemos lembrar de Mad Max: Estrada da Fúria e em outros de Pequena Miss Sunshine. Ademais, é um trabalho que constrói a relação entre os personagens com cuidado, não apressando as coisas. O texto conta, sem dúvidas, com toda bagagem afetiva que guardamos das figuras de Logan e Xavier. No entanto, ele consegue desenvolver novas camadas na personalidade deles, afinal, os dois estão mais velhos e sobrevivem ao caótico ano de 2024.
A trama é ambientada nesse futuro não tão distante, onde a espécie mutante beira a extinção. Gostei bastante do universo desesperançoso, opressor e árido criado por James Mangold. O diretor tem o carinho de apresentar o cenário aos poucos para nós. Somos convidados a conhecer, de forma vagarosa, os elementos que compõem aquele triste futuro. Por exemplo, logo na primeira cena, Logan passa um perrengue para derrubar alguns delinquentes, assim, James ilustra as fragilidades do personagem. Em seguida conheceremos Caliban que, mesmo vivendo no deserto, não pode pegar sol. Xavier vive dopado, para manter sobre controle a mente mais poderosa do planeta Terra. Enfim, depois veremos carros-robôs nas estradas, quadrinhos dos  X-Men, entre outras coisas que enriquecem esse cosmo.
Além disso, Mangold propõe uma estética fiel aos quadrinhos, o que é ótimo. Temos violência estilizada na medida certa, apenas o necessário para servir a narrativa de forma coerente. A cinematográfica sombria reforça a principal característica do filme, a carga dramática, sentida quase que de imediato. Tecnicamente falando é tudo muito bem feito. As sequências de ação são bem montadas, conseguimos compreender a movimentação das personagens e dos elementos na cena com clareza. Destaco a passagem de abertura, iluminada em neon, onde Logan enfrenta os ladrões. Por mais que seja “lenta”, ela é bem ritmada. Outro destaque, que contrasta com o primeiro, é a frenética perseguição de carros, momento em que Logan foge do depósito no deserto.

O roteiro de Logan é uma felicidade, me surpreendeu legal. A parte técnica é o mínimo que esperávamos de uma produção milionária como essa. O mais importante desse filme, na minha opinião, são os atores. Hugh Jackman e Patrick Stewart entregam performances comoventes e deixam transparecer os mais profundos sentimentos daqueles personagens. Sentimentos esses, que são aflorados pela inerente sensação de que o fim está próximo.

A novata Dafne Keen é impressionante, tem potencial para construir uma carreira de sucesso no cinema. Aqui, apesar da baixa estatura, ela está gigantesca em cena. Não consigo imaginar outra criança capaz de compor uma personagem tão ambígua quanto essa X-23. Dafne transmite no olhar toda desconfiança e hostilidade de Laura, ao mesmo tempo em que simboliza a fé da classe mutante.

Por falar em olhares, Logan pode estar quebrado fisicamente, mas é por meio do olhar que perceberemos sua ruína. Ao longo do filme o homem manca de um lado para outro, com olhos avermelhados e cicatrizes no corpo que não regeneram mais. De forma semelhante, cicatrizes de um doloroso passado estão eternizadas na personalidade dele. O herói tornou-se um bruto, que esqueceu a importância de relaxar, sorrir e amar. Entretanto, esses afetos preciosos não desapareceram por completo, apenas encontram-se adormecidos no interior dele. É tocante ver os sentimentos acordarem no personagem, mérito de um belíssimo desempenho do ator.

Contudo, Hugh Jackman está a flor da pele, atua com primor e encerra bonita participação na franquia. Logan ficará lembrado nesta quilométrica saga cinematográfica dos mutantes como algo muito, muito positivo.

terça-feira, 7 de março de 2017

Crítica: Zodíaco (2007)


Há 10 anos Zodíaco, sexto longa-metragem do diretor David Fincher, chegava aos cinemas. Eu era apenas um garoto na época, mas lembro de assisti-lo em casa, no DVD. Foi uma experiência diferente que marcou a minha infância. Hoje, após revisitá-lo, pude compreender melhor o impacto do filme na minha memória. 

Baseado no livro de Robert Graysmith, acompanhamos as investigações para desmascarar o assassino em série Zodíaco. No final dos anos 1960 e início de 1970, ele aterrorizou a região de São Francisco ao enviar para os jornais códigos e cartas, assumindo a autoria de alguns assassinatos. 

A obsessão é um conceito presente em Zodíaco. Temos um assassino obcecado e três homens obstinados a encontrá-lo. Mark Ruffalo vive o detetive de São Francisco responsável pelo caso. Robert Downey Jr. interpreta o repórter destacado pelo Chronicle para fazer a cobertura das investigações. Por fim, na pele do cartunista do jornal, está Jake Gyllenhaal. Eu gosto de observar como a vida desses indivíduos é afetada, na medida em que eles avançam na busca de uma solução para o mistério.

Os três núcleos são bem desenvolvidos pelo roteiro. Na primeira parte da história a atenção é voltada para o repórter Paul Avery (Downey Jr.) e o agente Dave Toschi (Ruffalo). No entanto, a partir do terceiro ato, Robert Graysmith (Gyllenhaal) ganha importância na trama. O chargista começa como mero coadjuvante, quase como um observador curioso do caso. Porém, alguns fatores fazem com que ele tome as rédeas da investigação.

Jake entrega uma performance impecável. Uma atuação sem exageros, tímida, que transmite no olhar a obsessão do protagonista em resolver o caso. No início do filme, Robert aparenta ser um homem simples e ingênuo, mas aos poucos ele recebe novas camadas. Em uma cena, quando questionado pela esposa o porquê da insistência na investigação, ele responde que se não for ele, ninguém mais vai tentar encontrar o assassino. É uma resposta simples que, graças ao desempenho cênico de Gyllenhaal, recebe um significado maior na tela. 

Zodíaco possuí uma cinematografia perfeita, algo comum na filmografia do Fincher. No entanto, já que entramos nos quesitos técnicos da obra, preciso destacar o uso inteligente do figuro. Além de retratar com fidelidade a moda da época, notem como os trajes do jornalista Paul Avery mudam com o desenrolar a história. Na primeira aparição, ele está vestindo roupas sociais, aparentemente de alto custo. Com o passar do tempo, elas são deixadas de lado e dão espaço para trapos e peças velhas. Dessa forma, a transformação pela qual o personagem passa é reforçada. Paul envolveu-se intensamente na investigação, começou a beber e usar drogas compulsivamente: “esqueceu da vida”.

Outro destaque vai para o primoroso roteiro escrito por James Vanderbilt. A história é narrada de forma linear e expõe as informações com clareza. Zodíaco possuí a profundidade de um documentário, porém, em nenhum momento deixa de ser um excelente thriller. Angus Wall, responsável pela montagem, precisa ser lembrado por ritmar as cenas com precisão. A primeira hora do filme lembra muito Todos os Homens do Presidente, vemos redações agitadas, telefonemas, apuração de informações e alguns assassinatos, o que foge um pouco do exemplo anterior. Acontece que na reta final, o longa-metragem muda de tonalidade, assumindo uma aparência mais familiar com a dos outros trabalhos do diretor. 

David Fincher filma uma obra-prima. Zodíaco pode ser contido, se comparado a outros títulos do gênero como Seven - Os Sete Crimes Capitais. No entanto, o terror desse filme transita fora de cena. Assim como os personagens, nós queremos encontrar o monstro, temos a necessidade de enxergá-lo. Fincher brinca ao ocultar o vilão do espectador. Ele sabe que o medo do Homem está no psicológico, na insegurança de entrar em um quarto escuro.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Melhores filmes do Oscar 2017


No próximo domingo, 26, ocorre a 89ª cerimônia do Oscar. Tenho o costume de registrar as minhas apostas e preferências, neste ano, vou dividir elas com vocês. Sem dúvidas, a estatueta mais aguardada e cobiçada da noite é a de Melhor Filme. Portanto, segue as minhas considerações sobre os nove títulos que disputam o prêmio.

Começando por A Chegada, um dos meus preferidos entre os indicados, que estreou ano passado no Brasil. Amy Adams, completamente esnobada pela Academia, interpreta uma linguista convocada por militares para estabelecer comunicação com extraterrestres que chegaram na Terra. É uma ficção científica incomum que explora com delicadeza os sentimentos humanos e enaltece a virtude do herói intelectual. Embora o filme tenha poucas chances de faturar o prêmio máximo, Denis Villeneuve pode ganhar, de maneira merecida, como Melhor Diretor.

Até o Último Homem me impressionou bastante. O novo trabalho de Mel Gibson conta a história real de um médico do exército que, mesmo recusando-se a pegar em armas e matar pessoas, salvou 75 homens na Segunda Guerra Mundial. Com duas horas e vinte minutos de duração, o filme se transforma por completo a partir da segunda metade. Gibson faz milagre por trás das câmeras e retrata com maestria o terror da guerra. Por mais que tenha sido indicado em várias categorias principais, o longa pode surpreender, no máximo, com uma vitória de Andrew Garfield na categoria de Melhor Ator.

Por falar em atuação, Viola Davis e Denzel Washington entregam performances arrepiantes no drama conjugal Um Limite Entre Nós. O longa-metragem, dirigido por Denzel e baseado em uma peça teatral, aborda muito bem o conflito entre gerações, ilustrado na relação de pai e filho. Viola está conquistando diversos prêmios por este filme e o Oscar de Atriz Coadjuvante deverá ser dela. Porém, o teatro-filmado de Washington dificilmente levará o prêmio da noite, mas ele está perto de conseguir seu terceiro Oscar de Melhor Ator.

Depois de realizar o excelente Whiplash, Damien Chazelle finalmente conseguiu tirar do papel sua obra-prima: La La Land - Cantando Estações. O musical acompanha o romance de um jovem e sonhador casal de artistas que tenta ganhar a vida em Los Angeles. Sucesso de crítica e amado pelo público, o filme conquistou uma legião de fãs. Com 14 indicações ao Oscar, o longa-metragem é o grande favorito da noite. Todas as minhas fichas foram apostadas nele. Chazelle tem tudo para faturar a estatueta de Melhor Diretor, afinal, filmou uma belíssima carta de amor a juventude, a paixão e ao cinema.

Estrelas Além do Tempo se propõe em apresentar uma “história que nunca foi contada”. Baseado em fatos e ambientado na guerra fria, durante a corrida espacial, o filme retrata o cotidiano de negras que trabalhavam com matemática na NASA. O longa-metragem é apenas o segundo no currículo do diretor Theodore Melfi, que explora com um leve humor o preconceito sofrido pelas personagens. No entanto, o destaque fica para as três atrizes principais. Por mais que conte uma história relevante, acho difícil que o filme fature algum Oscar.

Também baseado em fatos, Lion - Uma Jornada Para Casa conta a história do indiano Saroo Brierley. Com cinco anos de idade ele se perdeu da família e foi adotado por um casal de australianos, quando adulto, Saroo utilizou o Google Earth para encontrar seus familiares na Índia. Dev Patel interpreta o protagonista, na fase adulta, e pode receber o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Mesmo sendo emocionante, Lion é fraco, apelativo e quadrado, seria um absurdo ele ganhar como Melhor Filme.

Se existe possibilidades de La La Land não ganhar o Oscar de Melhor Filme é por causa de Moonlight: Sob a Luz do Luar. A produção independente, escrita e dirigida por Barry Jenkins, ganhou notoriedade e prêmios importantes por serem considerados termômetros para o Oscar. O drama acompanha a jornada de autoconhecimento de Chiron, um garoto negro e homossexual, em três momentos específicos: infância, adolescência e vida adulta. É o filme mais sensorial e poético dentre os nove na disputa. O longa-metragem pode vencer em outras categorias, como por exemplo a de Melhor Ator Coadjuvante, afinal, Mahershala Ali está maravilhoso no papel do amável traficante Juan.

A Qualquer Custo foi uma ótima surpresa, o filme do diretor David Mackenzie é um excelente faroeste moderno que resgata a estética do cinema norte-americano dos anos 1970. Acompanhamos dois irmãos que perdem a fazenda da família e decidem assaltar um banco como uma chance de se restabelecerem financeiramente. De início me identifiquei e gostei da irmandade dos personagens principais, interpretados por Chris Pine e Ben Foster, em atuações muito vivas. O veterano Jeff Bridges encarna o delegado que cruza o caminho dos assaltantes, ele concorre ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Resumindo, é um filme honesto e sólido que tem pouquíssimas chances de ganhar algum prêmio.

Por último, mas não menos importante, Manchester À Beira-Mar que é, de longe, o meu preferido dentre os nove indicados. Lee Chandler, vivido por Casey Affleck, retorna para sua cidade natal após a morte do irmão. Ele deverá tomar conta do sobrinho adolescente e encarar as razões que o fizeram deixar aquele lugar. Manchester é um filme belíssimo em todos os aspectos: técnicos, narrativos e cênicos. Com uma performance visceral e memorável, Casey tem que levar o Oscar de Melhor Ator para casa. É uma pena que a obra-prima de Kenneth Lonergan, diretor e roteirista, tenha poucas chances. No entanto, estou na torcida para que ele fique, pelo menos, com o Oscar de Roteiro Original.

E aí, o que vocês acharam dos indicados? Eu achei uma das melhores seleções dos últimos anos do Oscar. Filmes como Manchester À Beira-Mar, A Qualquer Custo, A Chegada e La La Land me agradaram bastante e, com certeza, os assistirei novamente.